16 de mar de 2010

Cidade 2030

"O futuro não existe. O futuro se constrói". (CICI 2010)

Pelo menos três grandes eventos sobre o futuro das cidades marcam os primeiros meses de 2010: Conferência Internacional Cidades Inovadoras (Curitiba, março),V Fórum Urbano Mundial (Rio, março) e Exposição Universal Xangai 2010 (maio-outubro, China), com respectivos temas: “Inovar para Viver e Conviver Melhor”, “Direito à Cidade” e “Melhor Cidade, Melhor Vida”.

Nesses eventos, pelo menos três grandes temas transversais saltam aos olhos: a essência das cidades são as pessoas, portanto, há que se mudar as pessoas; é preciso diminuir as lacunas sociais nas sociedades, seja por meio da inclusão digital, tecnológica, seja por meio da gestão participativa; é crucial preparar as cidades para as mudanças ambientais que já começam a acontecer. Água e energia, além da participação social, são considerados pilares básicos para o desenvolvimento de qualquer cidade, para um futuro sustentável.

Cidades que estão se desenvolvendo ou pretendem promover o seu desenvolvimento de forma sustentável estão com seu plano 2030 pronto: Paris (França), New York e Sacramento (EUA), Abu Habi (Emirados Árabes), Sidnei (Austrália), Barcelona (Espanha). Isso significa que são 20 anos para se promoverem e operarem mudanças, consolidar ou construir posições, ou seja, as crianças de hoje estarão ingressando o mercado de trabalho, após sua formação universitária e usufruindo das cidades 2030, como as planejarmos hoje.

A elaboração dos planos 2030 envolve pelo menos quatro fases: a de mobilização dos atores urbanos, formadores de opinião, elaboradores de políticas e tomadores de decisão, para pensar o futuro da cidade; a aceitação do horizonte de 20 anos como prazo suficiente e necessário para se trabalhar na implementação de ações inovadoras; o intercâmbio de opiniões, de experiências e conhecimentos visando o interesse comum; e o compromisso ou pacto de todos os participantes desse processo com relação à construção da visão de futuro definida conjuntamente.

O momento presente não deixa dúvidas de que mudanças ambientais são uma realidade que afeta a vida urbana e não podem ser relegadas a um segundo plano. São duas grandes preocupações: a contribuição de cada cidade para o desafio de baixar as emissões de gases nocivos ao ambiente e a adaptação de cada uma para receber os impactos locais, sejam eles relacionados aos novos índices pluviométricos, à elevação das temperaturas ou ao desafio da eficiência no uso dos três elementos vitais do planeta – solo, água e ar. A energia é um componente transversal, em todas as suas formas, que precisa ser tratada de forma estratégica, limpa e renovável.

Por outro lado, a gestão participativa, que vem caracterizando diversas cidades bem sucedidas do mundo, é apontada como a melhor forma de se transformar, construir ou consolidar territórios urbanos. Cidades são feitas de pessoas que têm suas histórias e sonhos individuais e coletivos, e cuja ação garante o sucesso de uma cidade.

As redes sociais reforçam tal direção: o cidadão, mesmo individualmente, por decisão pessoal, acaba por ser membro de alguma rede social que, potencializada pelo uso das tecnologias de comunicação e informação, têm sido responsáveis por muitas inovações, complementando ações governamentais e empresariais.

Nossas cidades, totalmente e cada vez mais, dependem da energia e buscam formas mais sustentáveis para se manterem: painéis solares iluminam ruas e praças, resíduos sólidos e efluentes geram energia, ônibus elétricos ou a hidrogênio, carro flex e outras novidades chegam ao mercado. É preciso atender a demanda energética de cidades que crescem, mas também é vital reduzir as emissões dos gases que provocam as mudanças climáticas. O transporte coletivo é apontado em várias pesquisas como o responsável por mais de 70% das emissões de várias cidades que podem dar sua contribuição para a redução total no planeta.

Na mesma direção, de forma complementar, o cuidado com a água revela-se cada vez mais crucial para o futuro urbano. Se no passado diversas cidades nasceram pela presença da água, no futuro, as cidades bem sucedidas serão as que puderem oferecer água para seus habitantes, visitantes e potenciais empreendedores.

“Se as tendências atuais se confirmarem, no futuro, a grande maioria da população viverá em cidades. O futuro do planeta, bem como de seus habitantes, estará ligado diretamente ao desenvolvimento das cidades, e nas mesmas estará a chave para o progresso humano. Esses espaços urbanos devem proporcionar condições para que as pessoas possam desenvolver suas habilidades criativas e inovadoras, com vistas a garantir um futuro melhor para todos.” (CICI 2010).

22 de nov de 2009

Cidades sustentáveis - como são ou serão?

Buscando responder esta pergunta, com o foco na água ou além dela, encontrei os artigos abaixo, no Planeta Sustentável. Espero que goste e compartilhe conosco outras dicas sobre o mesmo tema.

A primeira cidade sustentável do mundo
O governo chinês está erguendo um projeto que promete mudar o cenário local. Trata-se da cidade de Dongtan, que deverá se tornar a primeira cidade ecológica do mundo em 2010


Da redação
Especial Casa Sustentável* – 08/2009

*Revistas Casa Claudia e Arquitetura e Construção

Em 2007, o mundo viu sua população urbana mundial igualar-se à do campo (3,3 bilhões de pessoas). Nesse contexto, ganha importância o conceito de ecocity – uma cidade pensada para ser inteiramente sustentável, como Dongtan, na China.

A primeira fase do projeto, pronta em 2010, contemplará 10 mil moradores. Até 2050, 500 mil habitantes deverão mudar-se para lá. Na concepção do escritório britânico Arup, os prédios vão consumir menos água e energia (gerada em usinas solares e eólicas) e reciclar até 80% do lixo.

O planejamento urbano em pequenos núcleos favorecerá deslocamentos a pé ou de bicicleta. “No entanto, mudar-se para um lugar assim não implica necessariamente novos hábitos. Isso leva tempo e melhor seria se acontecesse nas cidades que já existem”, pondera Paula Santoro, urbanista do Instituto Pólis, de São Paulo.


Bem-vindo à Ecópole

A energia de lá vem do Sol e do vento. A comida sai de fazendas orgânicas pertinho de casa. Quase ninguém tem carro. E são 500.000 habitantes. É como vai ser a primeira cidade ecológica do mundo, que está para sair do papel. Onde? Na hiperpoluída China

Por Maurício Horta, de Chongming, China*
Revista Superinteressante - 08/2007

O jornal disse que vai ser uma das maravilhas do mundo!, arriscou o jovem professor Zhang Li, de 28 anos, membro do Partido Comunista e morador de Chongming, ilha no delta do rio Yang Tse onde será construída Dongtan.

No país mais populoso do mundo, Zhang Li cresceu acostumado com superlativos¿- aprendeu que Chongming era a maior ilha fluvial do planeta embora 17 vezes menor que a ilha do Bananal, no Tocantins).

Aprendeu também que a ilha surgiu recentemente não apenas do desastroso depósito de sedimentos vindos das margens desflorestadas do Yang Tse mas também graças ao trabalho de 220.000 colegiais de Xangai, que, durante a Revolução Cultural (1966-1976), "voluntariamente" atenderam ao chamado de Mao Tse-tung para abandonar a escola e transformar áreas pantanosas em terra arável. Metade desses ex-estudantes ainda mora na ilha.

Nunca os olhares do mundo tinham se voltado para a ilha de Chongming. Mas agora a construção da ecocidade de Dongtan em seu extremo leste pretende servir de exemplo para o resto planeta. O motivo é óbvio: em 2008, a população mundial das cidades vai superar, pela primeira vez, o número de pessoas que vivem no campo.

E o ritmo de urbanização deve se manter acelerado, boa parte graças ao crescimento econômico da própria China. Até 2020, partirão para cidades mais de 300 milhões de camponeses chineses¿- o equivalente a toda a população dos EUA. Quatrocentas cidades completamente novas deverão ser construídas, e o plano da China é deixar de ter 20 das 30 cidades mais poluídas do mundo em seu território, como acontece hoje.

A DOIS PASSOS DO PARAÍSO
Para atravessar Xangai até o porto onde se pegam as balsas para a ilha de Chongmingo táxi livra-se dos cruzamentos congestionados onde carros, ônibus, bicicletas, motonetas e triciclos motorizados disputam espaço buzinando sem se importarem com o sinal de trânsito.

Pega uma das inúmeras vias elevadas que fazem do Minhocão paulistano anão e, entre blocos residenciais comunistas e guindastes que constroem mais um dos 2.000 arranha-céus da cidade de 10 milhões de habitantes, penetra uma massa de ar densa, leitosa e acinzentada. Ao chegar ao porto, o rio Yang Tse se abre enorme e barrento e, a pouco metros, se funde à neblina morna.

Chongming é o único lugar perto de Xangai aonde a fumaça das fábricas não consegue chegar. Ligada ao continente apenas por balsas, a ilha, do tamanho da cidade do Rio de Janeiro, é lar de 650.000 pessoas, na maioria camponeses.

Nos fins de semana, a classe média da megacidade ao sul vem ao modesto paraíso ecológico para respirar ar puro, brincar de pescador e atropelar caranguejos com seus sedãs alemães em estradas recentemente asfaltadas.

É na área mais crítica desses 1.267 km² de natureza que será construída a ecocidade de Dongtan. São 86 km² de terra plana recentemente drenada para a agricultura, ao lado de uma reserva ecológica pantanosa, importante habitat de aves migratórias.

Desenvolver uma cidade moderna nesse ambiente idílico sem prejudicá-lo e fazer dela um modelo para outras cidades na China foi a tarefa dada pelo governo regional de Xangai ao escritório britânico Arup, responsável por projetos desde a Ópera de Sydney até construções para a Olimpíada de Pequim. Os futuros habitantes da ecocidade de Dongtan deverão deverão manter essa reserva intacta para que as aves mantenham seu pitstop no caminho entre a Austrália e a Sibéria.

RECEITA ECOLÓGICA
E o que faz de uma cidade uma ecocidade? Basicamente, seguir o caminho inverso de Xangai, Pequim, Shenzhen, Guangzhou, Chengdu e outras metrópoles chinesas. Ignorando a obsessão local em vencer a corrida pela construção da torre mais alta do mundo, a cidade verde terá prédios com 3 a 6 andares, que evitam o uso de elevadores e bombas-d'água. Ou seja, usam menos energia.

E na China, onde energia é sinônimo de usinas termoelétricas queimando toneladas de carvão a cada segundo, qualquer economia faz uma bela diferença para a atmosfera. Também abolido está o velho "centrão" das grandes cidades.

Dongtan será na verdade uma rede de núcleos urbanos compactos e auto-suficientes, separados por plantações, parque ecológico, campo de golfe e de hipismo. Cada núcleo será composto de vilas pequenas o bastante para você chegar do centro a qualquer ponto numa caminhada de 10 minutos.

Para ter o máximo de incidência solar no inverno e o mínimo no verão, os prédios serão projetados de acordo com a orientação do sol. Com uma circulação de ar correta pela casa, que libera o ar quente e recebe ar fresco, o ar-condicionado poderá ficar desligado por mais tempo no verão, enquanto materiais que absorvem o calor durante o dia e o liberam lentamente quando o sol se põe também diminuirão a necessidade de aquecimento no inverno. Os telhados terão cobertura vegetal, que contribui com o isolamento térmico. Com essas medidas, espera-se economizar 70% da energia utilizada em climatização.

Haverá ainda um sistema duplo de abastecimento de água, com um encanamento para água potável e outro para não potável, que vai para descargas e irrigação de jardins. A coleta de esgoto também será seletiva. Os dejetos sem a água de descarga, conhecida como "água cinza", serão tratados separadamente da "água negra", vinda direto da privada. Após tratada, a "água cinza" irá junto com a água dos canais para o encanamento de água não potável. O sistema deve derrubar o consumo de água à metade do de uma cidade comum e o volume de esgoto a menos de um sexto.

Quase nada vai se perder por lá: até 80% do lixo sólido será reciclado e os resíduos orgânicos, como sobras de comida e a "água negra", ou virarão adubo ou irão para digestores mecânicos. O papel desses digestores é produzir um gás rico em metano a partir de restos de alimentos¿- exatamente o que o seu organismo faz. Esse gás irá para os fogões e aquecedores residenciais. Imagine só cozinhar o almoço com fogão movido a pum! Esse almoço, e tudo o mais que for para a mesa em Dongtan, será produzido nas fazendas que separam os núcleos urbanos da cidade.

Com produtores do lado de casa, litros e litros de óleo diesel deixarão de ser consumidos no transporte de alimentos- e de fertilizantes, já que a idéia é montar fazendas orgânicas, que abrem mão de produtos químicos na lavoura. E não é só a comida que virá dos arredores da cidade: a energia elétrica também vai ser produzida lá. Para atingir a meta de emissão zero de CO2, optou-se por muita energia eólica e solar. Também haverá usinas de biomassa, que produzirão energia queimando a palha das plantações de arroz. Essas usinas emitem, sim, CO2. Mas as próprias plantações de arroz orgânico que dão o combustível sugam CO2 da atmosfera enquanto crescem. Então a conta zera.

Grandes hélices serão dispostas no leste da cidade, aproveitando os ventos do mar da China Oriental, assim como cata-ventos em miniatura no topo dos prédios. Dongtan procura ser ecológica até mesmo antes de estar pronta: quando possível, serão usados material e mão-de-obra locais, para reduzir o gasto com transporte; as construções serão pré-fabricadas, para evitar desperdício de materiais no canteiro de obras, e os alojamentos dos trabalhadores serão ecologicamente sustentáveis. E, claro, a cidade será planejada de forma que poluentes não atinjam as reservas pantanosas.

A maior parte das propostas para Dongtan é simples, mas, como qualquer alteração num ecossistema, seus efeitos vão longe. Com o comércio local num bairro compacto, não será necessário pegar o carro nem para trabalhar nem para fazer compras. Sem carros, haverá menos poluição sonora; sem poluição sonora, não será necessário fechar a janela em dias mais quentes; de janelas abertas, não será necessário usar tanto ar-condicionado; sem ar-condicionado, será gasta menos energia elétrica, e, com a economia de energia, será cada vez menos necessário o uso de combustíveis fósseis. E, se Dongtan der certo, a China poderá dizer que seu crescimento é, sim, sustentável.

O primeiro núcleo urbano ficará na parte sul da futura Dongtan. Com 3 vilas e uma população de 80.000 em 2020 ele servirá de laboratório para a Arup ver na prática aquilo que hoje é só imaginação e aperfeiçoar o que for preciso. Depois, a idéia é ir montando mais e mais núcleos urbanos na área. Todos à imagem e semelhança do primeiro. Aí, se tudo correr bem, em 2050 Dongtan vai se tornar uma pequena metrópole de 500.000 habitantes, como Ribeirão Preto, em São Paulo, ou Miami, nos EUA. Com a diferença que será (quase) tão verde quanto um parque ecológico. Mas o quanto disso é puro sonho?

E NO MUNDO REAL...
Chengjia é o vilarejo mais próximo de Dongtan. Pobre e empoeirado- é o ponto final do microônibus que atravessa a ilha de Chongming. Lá, as mudanças prometidas pela ecocidade já são evidentes. Lojas de construção se multiplicam como cogumelos, com azulejos e vasos sanitários ocidentais expostos nas calçadas. Não, não se trata de construções para Dongtan, mas, sim, da insaciável especulação imobiliária que vem chegando ao restante da ilha junto com a ponte que, em 2008, ligará a ilha de Chongming a Xangai. A ilha está pontilhada por minimansões nada sustentáveis.

As garrafas de Coca-Cola parecem não parar nas geladeiras das lojinhas com o movimento de trabalhadores que constroem os pilares da ponte. Ela faz parte de um complexo viário de US$ 1,5 bilhão que começa numa via expressa no coração financeiro de Xangai, imerge sob o Yang Tse em dois túneis de 8,9 quilômetros, emerge em uma ilhota na boca do rio e continua com uma ponte de 10,3 quilômetros até Chenjia. Quando estiver pronto, um homem de negócios poderá percorrer em meia hora de carro os 25,5 quilômetros que separam a Xangai hightech da ecológica Dongtan (hoje são duas horas). Com essa e outras pontes, Chongming deverá tornar-se uma importante ligação viária entre Xangai e Jiangsu, uma província mais ao norte.

Junto com o complexo viário, chegará uma das linhas do metrô de Xangai, que deverá percorrer o sul urbanizado da ilha, e uma linha de trem, ao longo do norte rural. As mudanças com o fim do isolamento são previsíveis. Embora o planejamento da ilha preveja que seu norte desenvolva agricultura orgânica, o centro seja uma reserva florestal, o oeste se transforme num resort lacustre e, a leste, Dongtan mostre ao mundo que a China pode ser sustentável, as megalomaníacas obras de infra-estrutura fazem questionar por quanto tempo Chongming ainda será uma ilha ecológica. Os camponeses mais prósperos, que conseguiram montar um pequeno comércio ou comprar um táxi, esperam ansiosos a chegada dos novos fregueses.

Sem ter saído do papel, Dongtan já inspira: Londres usa o projeto como base para criar uma área com emissão zero de CO2 por lá

Mas as perspectivas não são tão positivas para a maioria dos que deixarão o campo com a urbanização da ilha. Certamente, não irão para Dongtan- só um painel de células fotovoltaicas custa mais do que a renda anual de um camponês. Para alguns, o governo de Xangai reserva o posto de assistente de guarda de trânsito. Para outros, a sorte.

Na China, é difícil separar verdade de propaganda. Com Dongtan, o país tenta mostrar que a força de sua economia não trará necessariamente um desastre ambiental. Enquanto isso a China se torna o 2o maior consumidor de automóveis do mundo, desovando 7 milhões de carros a cada ano e com a previsão de ultrapassar os EUA como o maior emissor de CO2 em 2009. Para os críticos, então, não será surpresa se o crescimento foguete da China esmagar qualquer pretensão ecológica, e a cidade verde se tornar tão real quanto os sorrisos nos pôsteres de propaganda da Revolução Cultural.

Mesmo assim, só o que está no papel já serve de inspiração para outros governos. O prefeito de Londres, Ken Livingstone, foi a Xangai para conhecer melhor os planos da ecocidade. Ficou impressionado. E quer usá-los para criar um bairro com emissão zero de CO2 no subúrbio de Londres¿- uma amostra de que, se Dongtan vingar, aí é que não faltarão seguidores pelo mundo. E agora um pouco do nosso futuro depende do que acontecer nesse pântano do outro lado do mundo, no nebusoso delta do Yang Tse.

*Edição Alexandre Vernignassi

2 de nov de 2009

Informação sobre Água: lições aprendidas das fazendas mineiras do século XIX-XX

Um país como o Brasil, composto de imigrantes de todas as partes, que se juntaram aos indígenas que habitavam suas terras por mais de 500 anos, acumulou um rico acervo de conhecimentos tradicionais que mesclam saberes autóctones e saberes desenvolvidos em outras terras, como Europa, África e Ásia.

Entre lendas, conhecimentos sobre a meteorologia e um íntimo relacionamento com o ciclo da água, tais saberes reúnem também uma tradição de engenharia hidráulica e de aproveitamento de água muito peculiar: são as lições deixadas pelas fazendas de café e cana-de-açúcar do interior do país.

A arquitetura rural é um tema pouco explorado por arquitetos que ainda não se envolveram com o tema água como força motriz, como símbolo de vida, como elemento agregador, muito além do uso paisagístico convencional herdado do Renascimento europeu. Trata-se de funções mais básicas, talvez medievais ou ainda mais antigas.

Para melhor compreensão de alguns desses conhecimentos, é necessário entender o contexto em que se desenvolveram: as fazendas de café, localizadas entre colinas da região leste de Minas Gerais, são produto da divisão de grandes porções de terras herdadas por portugueses ilustres que se transladaram de Portugal para as novas terras: as capitanias hereditárias.

As capitanias foram desenvolvidas por seus donos na forma de vilas ou sesmarias sobre as quais cobravam impostos, exerciam justiça e pagavam impostos ao rei de Portugal. As sesmarias eram grandes fazendas que, depois de 1822 (Wikipédia) entraram para o mercado de terras tal qual é conhecido hoje.

Nos finais do século XIX, estimulada pela abolição da escravatura, a imigração italiana atinge seu ápice – entre 1880 e 1930. As sesmarias foram divididas e compradas por italianos nessa região do Estado de Minas Gerais. Estamos falando de fazendas de 50 a 200 alqueires, que correspondem a cerca de 160 hectares.

Isoladas em uma região de difícil acesso, as fazendas requeriam um manejo que hoje é sinônimo de sustentabilidade: um manejo delicado, para um sistema bastante vulnerável, mas ainda assim forte e extremamente produtivo. Consistiam em sistemas fechados, como ilhas de desenvolvimento em uma grande área de ecossistema ainda virgem: a Mata Atlântica.

Considerando que tudo isso se deu antes da revolução industrial brasileira, é compreensível que igualmente as pequenas aglomerações não contavam com um comércio vibrante, com produtos manufaturados. As fazendas forneciam importantes produtos às vilas, tais como alimentos diversos, incluindo o café, o açúcar e bebidas alcoólicas como a cachaça.

Nesse contexto, o aproveitamento da água era um fator fundamental para as verdadeiras agroindústrias em que se converteram as fazendas daquela época, principalmente as italianas que são o foco desta narrativa. Alguns usos da água para a sustentabilidade das fazendas eram: o uso prioritário na casa, o reuso na área circunvizinha à casa; o uso na produção industrial de alimentos, o uso para geração de energia e o uso religioso.

a) uso prioritário na casa

A água pura nem sempre era encontrada perto da casa da fazenda. Era, portanto, necessária toda uma engenharia de agrimensura para trazê-la das fontes naturais, por uma distância de aproximadamente um quilômetro até a sede da fazenda. Isto se dava por meio de pequenos canais construídos ao longo de curvas de nível, contornando as montanhas e respeitando o tipo de solo.

Eram canais de cerca de 60 cm de largura e 80 cm de profundidade, que deveriam ser monitorados pelos filhos do dono, periodicamente, para evitar que animais mortos ou galhos de árvores bloqueassem ou contaminassem o precioso líquido.

O cuidado com a água da casa era tão grande que se plantavam algumas espécies de vegetação arbustivas ao longo do canal para manter a água fresca e protegida de pequenos animais que não teriam espaço para atravessar e banhar-se, por exemplo.

No ponto de derivação da água para a casa se fazia uma proteção em grade, que deveria ser frequentemente inspecionada a fim de limpar as folhas secas e outros detritos que se acumulavam naturalmente, como uma espécie de filtragem.

O armazenamento era feito em caixas de tijolos e cimento, sendo a tubulação de bambu, substituída a partir dos anos 1950 por tubos de ferro. A caixa de água foi, nessa época, construída sobre o banheiro.

O aquecimento também foi planejado, com serpentinas que passavam pelo fogão de lenha, aproveitando o calor produzido para cozinhar os alimentos. Assim, era possível misturar as águas frias e quentes de acordo com o gosto do habitante da casa.

A água também servia à cozinha e às instalações sanitárias, mas com diferentes destinos, respectivamente a área circunvizinha à casa e o córrego que passava por trás da habitação.

b) reúso na área circunvizinha à casa

A água que se usava na cozinha e para o banho era recolhida fora da casa por pequenos canais, não muito profundos e abertos, por onde seguiam ao longo dos pomares, irrigando-os por infiltração, até o córrego mais próximo.

O único sabão usado, feito em casa, não possuía toxinas fortes, como soda cáustica, pois era feito com os restos de animais que se abatiam para consumo doméstico e cinzas resultantes da combustão da lenha no fogão. Não eram poucas as vezes que se viam as galinhas, patos e outras aves bebendo a água desses pequenos canais.

A horta usava a água captada do córrego, antes da casa. Eram feitos poços nos quatro cantos da área cultivada, que se conectavam entre si e mantinham um ambiente úmido e de fácil manutenção, visto que com ferramentas simples era possível aspergir água sobre os vegetais.

c) uso na produção industrial de alimentos

A localização do engenho de cana-de-açúcar obedecia a algumas regras, sendo a mais importante a proximidade do canal que abastece a casa. Era necessário que a água chegasse à roda d´água por cima para movê-la. Era feita uma derivação do canal, antes que chegasse à casa, para a área que se pode caracterizar como “área industrial” da fazenda.

A roda d´água, além de mover o engenho, era uma atração turística para os visitantes. E acabava criando um ambiente úmido muito apreciado por samambaias e outras espécies vegetais ornamentais.

A represa desta fazenda foi construída em uma depressão do terreno, pouco depois de uma ou mais fontes naturais. A configuração da micro-bacia era tal que a água da chuva era recolhida com abundância e ficava aí armazenada por muitas semanas, sempre alimentada pelas fontes naturais.

Era possível pescar nessa represa, mas não era permitido nadar, talvez porque era uma represa pequena, mas profunda e perigosa para as crianças. Como tudo se aproveita em uma fazenda, as árvores que protegiam a água da evaporação deviam ser frutíferas para a “pequena fábrica” de doces especiais, além de prover alimento para os peixes.

A partir da represa, a água tinha diferentes usos: o moinho de fubá, o monjolo onde se moíam o milho e outros produtos para consumo doméstico e dos animais; a área do curral e, mais tarde, a geração de energia.

Em outras palavras, a água na fazenda era a força motriz de todos os aparatos necessários para a sobrevivência da família, tanto sua alimentação como sua capacidade de aquisição de novos produtos, não existentes na fazenda.

Depois de passar pelos equipamentos de produção industrial, a água é novamente aproveitada, uma segunda ou terceira vez, na irrigação da cultura de cana-de-açúcar (o cultivo especial para os donos da fazenda) ou o milho, antes de voltar para seu ciclo natural, no córrego.


d) uso para geração de energia

A partir dos anos 50, da represa também se derivava a água para geração de energia, necessária para o rádio e a iluminação em geral. Somente usada à noite, para não competir com o moinho de fubá, o gerador de eletricidade passa a ser um importante componente do conforto doméstico, mas não da produção industrial.

e) uso religioso

Toda fazenda italiana tinha um cruzeiro: no alto de um morro, para proteção de toda a área circunvizinha, uma grande cruz que se adornava uma vez por ano, na festa da Santa Cruz. Era comum, depois do plantio do milho, quando se necessitava chuva para fazer brotar as sementes, que o dono da fazendo reunisse todos os filhos e ajudantes para buscar água e levá-la até o cruzeiro, regando seu pé com o líquido precioso e orando para que as chuvas caíssem sobre o cultivo recém plantado.

Em geral – não sabem explicar os descendentes da família – em um ou dois dias, não mais, chovia.

31 de out de 2009

A água salva a lavoura... e a lavoura salva a água!

É oportuno refletir sobre um assunto que está sendo discutido no mundo todo. Hoje, no campo do manejo integrado dos recursos hídricos ou da gestão da água, a Bacia Hidrográfica é considerada um organismo único, uma unidade de planejamento. O homem ocupa as bacias, com lavouras, nas áreas rurais.


Podemos visualizar essa ocupação da seguinte forma: esta ação do homem nas bacias corresponde à sobreposição, ao ambiente natural, de uma camada de ambiente artificial/cultivado (a lavoura) criada pelo homem; uma película feita pelo homem, sobre a base natural que a Terra oferece. Quanto mais a camada do ambiente artificial for homogênea, densa e uniforme, menos do ambiente natural é visto e resta como referência para aqueles que vivem no novo ambiente, modificado.


Algumas vezes, as lavouras costumam cobrir totalmente o ambiente natural, substituindo, inclusive, áreas de nascentes, de recarga e matas ciliares. A relação de exploração do solo é tão forte e frenética que o ambiente natural é coberto por essa película de vegetação uniforme (monocultura) que, com o tempo, leva à drenagem ou ao rebaixamento do lençol freático, sem as recargas necessárias.


Outras vezes, a película artificial da lavoura, ao cobrir uma bacia hidrográfica, deixa lacunas através das quais se pode ver o ambiente natural. É exatamente nessa paisagem, da lavoura somada a áreas naturais, que reside o equilíbrio que muitos denominam desenvolvimento sustentável. Está aí o “ponto” em que a lavoura pode salvar a água.


A relação do homem com o rio (rio acima: mananciais, nascentes; rio abaixo: foz e área de recarga) precisa sair dos livros de geografia e permitir que o produtor rural, baseado em seu conhecimento prático, contribua com a natureza para que ela possa ser sua parceira, produzindo a água de que necessita, reciclando a água em seu ciclo natural, reabastecendo o lençol freático, deixando água para o vizinho rio abaixo, etc.


Assim, a lavoura salva a água enquanto tira proveito dela para o aumento e prolongamento de sua produção. Essa é a lógica das bacias hidrográficas, do cultivo em micro-bacia, mas também do manejo integrado das bacias hidrográficas, especialmente se considerarmos a inter-relação entre as áreas de lavoura e as cidades localizadas rio abaixo, que captam água para o abastecimento humano. Em outras palavras, a lavoura salva não apenas a água, mas influi na qualidade de vida das pessoas rio abaixo, produzindo seu alimento e preservando a qualidade d’água que terão para beber.


Há uma outra maneira de ver esse tema: a paisagem natural normalmente é bela. A criação, para muitos de origem divina, tem poesia, naturalidade, força vital por si só; entretanto, quando é substituída completamente pelo homem por uma paisagem moldada à mão, máquinas e adubo, eliminamos qualquer manifestação da natureza original, sendo quase como uma negação, quase como uma ação de extermínio do “dedo de Deus” sobre a Terra.


Ao fazer isso, o homem elimina também qualquer possibilidade de manifestação do belo, da biodiversidade, da Natureza enquanto obra de arte: árvores incrivelmente belas, arranjos florais primaveris que nenhuma floricultura é capaz de fazer, ruídos de água inigualáveis, micro-clima agradável, gerador de brisas e irradiador de vida... A tecnologia substitui, cobre e sufoca a Natureza. A criação do homem substitui, cobre e sufoca a criação divina dominando-a até o último suspiro.
Então, evocando a imagem anterior do equilíbrio, a convivência de lavouras com certas áreas naturais protegidas, também permite que a propriedade e a paisagem rural propiciem às pessoas que ali vivem, beleza, inspiração e alegria pelo fato de poder desfrutar de espaços agradáveis, micro-climas saudáveis, ao mesmo tempo em que se ganha dinheiro com a produção. Em muitos casos podem chegar a ser pontos de atração ecoturística, ou de um programa de turismo rural, gerando ainda mais recursos.


A proposta do desenvolvimento sustentável (de aceitar um lucro menor do que 100%, mas permitir a manifestação da natureza na paisagem humanizada) permite que a relação seja mais eqüitativa, concomitante e equilibrada. O esgotamento dos recursos naturais não é total e a aridez das lavouras também não. Há uma diversidade na paisagem que significa muito mais do que apenas convivência: significa também subsistência, sustentabilidade, longevidade, satisfação de múltiplos desejos e sonhos, permissão para a vida acontecer em mais formas.


A lavoura depende da água. A água pode salvar a lavoura. Entretanto, a lavoura também pode salvar a água. É através do resgate de fórmulas tradicionais de tratar a terra, adicionando a elas um pouco da lógica humana e introduzindo técnicas de manejo da natureza, no lugar de seu controle, que se poderá aproveitar melhor da força da natureza em favor da vida, da produção e do desenvolvimento econômico.


Traduzindo isso, na lavoura, a água pode ser “salva”, por exemplo, através da colheita de água de chuva, fonte hídrica natural direcionada para uma bacia qualquer. Proteger essa chuva contra a evaporação rápida é um cuidado que deve ser proporcional à escassez da água na bacia. Armazenar e dificultar as enxurradas de água, tentando fazer com que ela permaneça o maior tempo possível na bacia é outra estratégia que deve ser vista como econômica, na medida em que a água, enquanto circula pelo território da bacia gera energia, produz alimentos, move máquinas, permite trabalho, etc. Finalmente, manter essa água limpa, é uma obrigação de todos.


Cada uma dessas ações pode ser realizada de diversas maneiras. Cada dia surge mais um CD-ROM, um projeto, ou um livro explicando uma dessas formas. Por exemplo, a coleta de água de chuva na lavoura, pode ser feita com pequenas represas nos talvegues/encostas das montanhas, permitindo a retenção, infiltração e recriação de micro-climas. Também pode ser feita mediante poços que têm, ao seu redor, uma superfície ampla de implúvio, ou seja, de convergência da água de chuva para o poço.
Ainda pode ser feita através da manutenção de florestas nas áreas de recarga, no alto dos morros ou em áreas de solo poroso, pantanoso, que permitem a infiltração natural das águas. Capta-se a água de chuva também através de definição de diversas curvas de nível no terreno, seja montanhoso ou plano, seja com montes de terra, seja com pedras, degraus ou de outro tipo de barreira, que mantém vários pequenos lagos lineares, que não apenas armazenarão água durante as chuvas, mas também quebrarão a velocidade das enxurradas que provocam erosões.


Pode-se, também, captar águas de chuva através de superfícies impermeáveis, como telhados, pátios cimentados, estradas, etc, armazenando-as em depressões ou poços ou tanques laterais ou centrais, dependendo da inclinação dessas superfícies. A construção de barragens subterrâneas, ou de pequenas represas de pedra nos talvegues, imita a natureza quando coloca, ao longo de córregos, pedras que diminuem a velocidade, que depuram e permite a decantação, retendo matéria orgânica no solo, permitindo o crescimento da vida, no espaço que chamamos mata linear. Enfim, para cada uma das ações mencionadas, existe uma série de técnicas e outras estão sendo criadas, de acordo com as características de cada região e com o grau de avanço das tecnologias disponíveis.


Muitas dessas técnicas já existiam desde as civilizações Incas no Peru, desde a Grécia, cinco séculos antes de Cristo... Na medida em que o homem foi revestindo a superfície natural do planeta com uma superfície artificial, muitas dessas técnicas foram esquecidas, desprezadas ou ignoradas por serem ultrapassadas, obsoletas, inadequadas para situações nas quais se precisava vender novos equipamentos e novas tecnologias. Hoje, muitas delas, se reúnem na forma de técnicas de Permacultura, Agroecologia, Agroflorestas, Agrosilvicultura, Fazenda Orgânica, enfim, nomes os mais variados possíveis, que, tentam resgatar certas técnicas tradicionais, adicionando lógica e algum aperfeiçoamento ao processo, a partir dos conhecimentos já acumulados pela humanidade.


Mas a essência da lida com a água em cada “unidade de planejamento” é o respeito por seu ciclo, o cuidado com sua presença constante, o desejo de sua convivência com o que o homem cria. Isso é mais um pouco do que apenas manejo integrado de recursos hídricos: é gente cuidando d’água da melhor maneira possível. Mais do que cumprir o Código Florestal, o cuidado com a água nos faz cumprir a Lei e ir além dela, tirando ainda maior proveito do que um dia foi imposto como obrigação.
Isso por causa dos tantos que fizeram coisas erradas, erradicando as possibilidades de sobrevivência d’água em propriedades rurais, causando desertificação, salinização do solo etc. Por isso foram feitas as leis. Não por causa dos que amam e cuidam d’água, mas pelos que não souberam cuidar dela.
Fazer isso numa pequena área, em apenas uma cidade, uma fazenda, é muito mais fácil. O trabalho com micro-bacias tem um potencial enorme na medida em que é facilmente visualizado e rapidamente alcança resultados visíveis na quantidade e na qualidade da água que chega ao rio principal. Essas ações estão ao alcance do cidadão.


Entretanto, fazer isso em grandes áreas, em Estados, em grandes bacias, exige do cidadão a confiança em seus representantes que articularão essas ações, através de leis, de programas e de projetos. E cada cidadão espera dos governos, a ética e o compromisso para com os resultados. A água é o único alvo de nossas atenções, cidadãs, governamentais, técnicas, empíricas... Sua cor, sua quantidade e a vida que nela reside são os indicadores de que a nossa saúde-vida está preservada, garantida, mantida.


Cuidar de uma bacia hidrográfica significa aumentar a nossa perspectiva de vida sobre a face de um planeta saudável. Por isso, a sociedade deve continuar pensando globalmente, mas agindo, localmente, na sua própria micro-bacia.

Fonte: http://www.eco21.com.br/textos/textos.asp?ID=405